Democratização

 

Tese - Visibilidade às Questões Étnicas nos Meios de Comunicação e no Mercado de Trabalho

 

Autores:

·         Núcleo de Comunicadores Afro-brasileiros do RS - Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Rio Grande do Sul

·         Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial - Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo - Cojira -SP

·         Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial - Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro - Cojira-RJ

 

1. Apresentação

A questão racial vem pontuando, em todo o mundo, as discussões voltadas à conquista da cidadania. O racismo foi um eixo básico da luta pelos Direitos Humanos e ganhou outras feições na contemporaneidade, forjando novas perspectivas de inclusão. O Brasil, institucionalmente falando, avançou significativamente na discussão sobre o tema. O país se reconheceu oficialmente como racista, afirmação até há pouco tempo interditada pelo discurso oficial.

Os resultados reiterados das pesquisas estatísticas fizeram com que nas últimas décadas fossem desenhados e implementados leis, recursos e outros dispositivos de correção dos problemas raciais. As políticas focalistas (ações afirmativas, políticas de cotas, reparação) despontaram no horizonte do possível como uma alternativa para diminuir o fosso entre brancos e negros.

Como questão estrutural da sociedade brasileira, as relações raciais necessitam de atuação especial dos jornalistas. Os meios de comunicação e, particularmente, a imprensa, poderão ocupar posição privilegiada no processo de superação dos problemas raciais. Tal importância pode ser detectada em várias instâncias legais e proposições: o Estatuto da Igualdade Racial, Projeto de Lei n.° 3.198, por exemplo, reserva o capítulo VIII para os meios de comunicação. Focado nas mensagens publicitárias e da imprensa, o Estatuto parte do princípio de que “a publicação veiculada pelos órgãos de comunicação valorizará a herança cultural e a participação dos afro-brasileiros na história do País” (Art. 55).

Ao trazer esse tema para o XXXI Congresso Nacional de Jornalistas, o Núcleo de Comunicadores Afro-brasileiros do Rio Grande do Sul, a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (Cojira-SP), a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Sindicato dos Jornalistas do Estado do Rio de Janeiro (Cojira-RJ), querem ampliar o debate nos marcos do jornalismo e do espaço sindical e dar visibilidade a eventos, situações, ações, práticas, discussões e rotinas, abrindo espaço para a construção de uma outra tradição no modo de se fazer jornalismo, que leve em conta a pluralidade e igualdade raciais.

É bem conhecido dos profissionais engajados no combate ao racismo e na promoção da igualdade o fato de que a abordagem da temática racial continua sendo velada nos meios de comunicação. Esta situação vem provocando mudanças de posturas nesses profissionais: negros e não-negros têm a responsabilidade diária na redefinição dos conteúdos oferecidos pelos meios de comunicação sem o preconceito e os estereótipos que, normalmente, caracterizam o enfoque quando o negro é notícia. O ideal seria que a isso se somasse um compromisso dos veículos de comunicação de integrarem em seus quadros ocupacionais povos historicamente discriminados em escala proporcional aos seus respectivos pesos demográficos.

Tais desafios fazem com que este documento sinalize para quesitos importantes na conquista efetiva de igualdade racial.

 

2. Justificativa

O Núcleo Afro-brasileiro do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul, a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro (Cojira-RJ/SJPMRJ) e a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Sindicato de Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (Cojira-SP) apresentam, nesta tese, uma reorientação em nossa organização sindical como resultado de um compromisso voltado para conquista da igualdade racial em nosso País. Assumir a bandeira contra o racismo implica em outras orientações nas nossas práticas rotineiras, pautadas, muita das vezes inconscientemente, pelo preconceito. É o histórico preconceito de não ter preconceito, como dizia Florestan Fernandes.

A inclusão do tema no XXXI Congresso Nacional de Jornalistas pelo Núcleo de Comunicadores Afro-brasileiros do Rio Grande do Sul e pelas Comissões do Rio de Janeiro e de São Paulo é uma estratégia política importante capaz de sinalizar para referenciais que colaborem na superação do racismo nos limites do jornalismo e do espaço sindical ligado à profissão. A situação do negro em várias instâncias da sociedade brasileira é um indicador importante para o delineamento desta tese.

Dados de pesquisas (cujos resumos apresentamos nessa tese) realizadas e divulgadas nos últimos anos revelam a condição de inferioridade em que historicamente se encontram trabalhadores negros (homens e mulheres). Desde as dificuldades de acesso à Universidade, impedindo sua formação acadêmica e qualificação de sua mão-de-obra para um mercado reservado, desde a colonização do país aos descendentes dos europeus até ao cerceamento ao exercício de funções de chefia ou comando em qualquer ramo de atividade.

A situação de desigualdade dos trabalhadores negros também pode ser observada no universo da imprensa. Homens e mulheres negras estão sempre em menor proporção. A estrutura ocupacional dos meios de comunicação, e particularmente da imprensa, é considerada uma das mais excludentes do ponto de vista racial. Levantamento realizado pela Revista Imprensa, divulgado em sua edição de n.º 165, de outubro de 2001, e reproduzidos no artigo ‘Igualdade Racial Entre os Jornalistas ainda é uma Meta’, do jornalista Flávio Carrança, comprovam o número de negros nas redações é mínimo, o que torna ainda mais distante o mundo jornalístico das questões específicas da etnia negra. De cinco mil questionários enviados pela Revista Imprensa para redações de todo o País, perguntando sobre o número de profissionais da redação, entre eles quantos negros e quantos ocupam cargos de chefia, apenas 230 responderam e dessas somente 85 (36%) informaram contar com algum negro ou negra jornalista. O mesmo levantamento comprova que poucos negros(as) conseguem cargos de chefia ou de maior visibilidade. Do total de 3.400 profissionais, apenas 57 (1,6% do total) ocupavam cargos de chefia nos 230 veículos que responderam ao questionário.

A situação das mulheres negras também é diferenciada nos meios de comunicação. Em todo o mundo, existem cerca de 300 mil jornalistas mulheres. Na América Latina, a estimativa é de 60 mil profissionais deste gênero. No Brasil, além de atuarem em número significativo como profissionais de comunicação, as mulheres são a maioria na outra ponta desta indústria como público consumidor de TV, Rádio e Revistas. Representam, hoje, no País, 49% dos leitores de jornais. Quando se agrega o tópico racial a esses números, a presença de mulheres negras é ainda mais escassa.

Além da estrutura ocupacional, outro braço da discriminação pode ser destacado na instância dos meios de comunicação: a produção dos conteúdos. Sendo uma forma minimalista de ler e dizer o mundo, o jornalismo nem sempre leva em conta a diversidade racial que nos constitui. A produção de conteúdos, geralmente, exclui qualquer modo de se noticiar os fatos que venha a fugir do modelo eurocêntrico, regido desde sempre pelo poder e pela escola capitalista onde o conteúdo subliminar doutrinário sempre se sobrepõe a uma leitura crítica da realidade que se apresenta para ser noticiada.

Ao apresentar-se este quadro como parte do processo de discriminação racial, o Núcleo de Comunicadores Afro-Brasileiros do RS, a Cojira-RJ e a Cojira SP trazem um foco para discussão que será a elaboração de cláusulas de promoção da igualdade - cotas - para serem inseridos nos acordos coletivos da categoria seguindo os padrões estabelecidos pela política de valorização da diversidade. O Núcleo de Comunicadores Afro-brasileiros do RS, a Cojira-RJ e a Cojira-SP estão desencadeando em suas entidades sindicais os princípios de resistência, de protesto e de articulação da luta contra o racismo e as desigualdades de gênero, sem perder a perspectiva de classe.

O Congresso Nacional de Jornalistas é uma boa oportunidade para uma reflexão sobre questões éticas, de qualidade da informação e, também, sobre o significado do perfil do negro que é projetado pela mídia. É, ainda, o momento para que as linhas de uma outra comunicação e imprensa sejam definidas. Nesse sentido, consideramos da maior importância a apresentação desta tese num momento em que o jornalismo também é convocado para pensar e incluir racialmente. Mais do que responsabilidade social, esta iniciativa configura-se como uma urgência política e um imperativo ético.

 

3. Sobre as organizações proponentes

 

3.1. Núcleo de Jornalistas Afro-descendentes do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul

O Núcleo de Jornalistas Afro-descendentes do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul foi criado em 2001, para atender as demandas do Comitê Afro-Brasileiro do Fórum Social Mundial. A necessidade foi repassada a jornalistas militantes do Movimento Negro, durante o ano de 2000, depois de os negros de todo o mundo terem enfrentado inúmeras dificuldades para tornarem visíveis sua participação e ações durante o I Fórum Social Mundial, sem qualquer apoio dos meios de comunicação.

As constatações do Movimento Negro organizado comprovavam a invisibilidade dos negros no Brasil e especialmente no Rio Grande do Sul e o desinteresse dos veículos de comunicação por suas causas e ações.

Em meados de 2000 a demanda foi encaminhada à Diretoria do Sindicato dos Jornalistas e indicado o nome da Jornalista Santa Irene Lopes de Araújo (militante do Movimento) para atuar na coordenação do Núcleo na Comissão do Comitê Afro-Brasileiro. Receptiva à solicitação, a diretoria sugeriu, então, a criação de um Núcleo, que congregaria jornalistas afro-descendentes e daria apoio durante o II Fórum Social Mundial em 2001.

As jornalistas Santa Irene e Jeanice Ramos assumiram a coordenação do Núcleo que se implantou e desenvolveu algumas atividades com apoio do presidente do Sindijor, José Carlos Torves e outros membros da diretoria. Mas as dificuldades de identidade e de comprometimento orgânico com as demandas da etnia, que permeiam historicamente a sociedade brasileira, foi um obstáculo intransponível à participação de outros profissionais afro-brasileiros, impedindo que o Núcleo tomasse forma e organicidade. Mesmo assim, com esforço de alguns, muitas tarefas foram cumpridas e o Núcleo esteve presente em diversas atividades organizadas pelo Movimento Negro, nestes três anos.

Ao mesmo tempo em que os incentivadores do Núcleo encontravam resistência dos jornalistas à participação orgânica, comunicadores de emissoras de rádio, televisão, veículos comunitários (jornais e rádios), relações públicas e publicitários afro-brasileiros participavam voluntariamente e manifestavam a vontade de se integrarem ao Núcleo.

Durante as comemorações da Semana da Consciência Negra de 2003, no Quilombo Zumbi dos Palmares, comunicadores de diversas áreas passaram a colaborar voluntariamente com o Núcleo. Foi decidida, então, a formalização do Núcleo de Comunicadores Afro-descendentes no Sindijor-RS, que hoje conta com um cadastro de 64 comunicadores, dos quais 32 participam esporadicamente e nove estão atuando de forma permanente, discutindo as questões da etnia nos meios de comunicação, buscando a definição de políticas que reconheçam e legitimem suas especificidades, manifestações culturais e forma de viver próprias, legados deixados à população brasileira pelos ancestrais africanos. Os profissionais de comunicação afro-brasileiros preocupam-se e buscam - cumprindo seu dever de ofício - o reconhecimento, valorização e respeito pelas características específicas de sua etnia nos meios onde atuam profissionalmente e em todas as instâncias sociais, políticas e econômicas do Estado e do País.

 

3.2. Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro (Cojira-RJ/SJPMRJ)

Também no Estado do Rio de Janeiro, precisamente no Município que leva seu nome, no dia 11 de junho de 2003 foi criada a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro (Cojira-RJ/SJPMRJ). Ela é um dos órgãos consultivos dessa entidade sindical, bem como executor de programas são da questão racial no Brasil e, especificamente, a relação desta com os meios de comunicação social.

Inicialmente, a Comissão integrada pelos jornalistas Miro Nunes, Sandra Martins e Angélica Basthi, fora provisoriamente nomeada de Comissão de Jornalistas Afro-Descendentes. Com o conhecimento e formalização do contato com a futura parceira e co-irmã paulista Cojira-SP, fez-se uma consulta às direções das duas entidades sindicais para possível adoção do nome da Comissão alterando somente a unidade federal. Com o apoio das instituições, a Comissão carioca passou, então, a adotar a mesma sigla. Tal atitude embute uma visão de busca de solidariedade e fortalecimento de uma identidade, que tem como meta construir um jeito diferenciado de se fazer sindicalismo na área dos meios de Comunicação Social ao se incorporar, em definitivo, a questão racial como uma de suas prioridades.

Conscientes da extrema relevância dessa temática, exposta inclusive na revista do Sindicato - Lide1 - que abordava o racismo nas redações, a invisibilidade do negro e do desinteresse dos meios de comunicação social por suas causas e ações, um grupo de jornalistas afro-descendentes tomou a iniciativa de propor à direção do SJPMRJ a criação de um fórum para discutir temas ligados às relações raciais no Brasil.

A Cojira-RJ tem entre os seus objetivos: o acompanhamento crítico do noticiário relacionado à questão racial; estímulo ao aprendizado e reciclagem dos profissionais de comunicação, especialmente os jornalistas, de modo a compreenderem com mais profundidade o tema que dá nome à comissão; debate dos assuntos relacionados à comunidade afro-brasileira; produção de textos voltados para os eventos propostos; apoio às iniciativas de trabalhos, acadêmicos ou não, na área de Comunicação Social que privilegiem a discussão da diversidade étnico/racial; incentivar a difusão e instalação de fóruns similares em todas as entidades sindicais no território nacional; mapear e analisar a situação dos jornalistas afro-descendentes no município do Rio de Janeiro; organizar um banco de dados sobre a questão racial e a imprensa negra.

 

3.3. Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (Cojira-SP)

A Cojira-SP foi criada no segundo semestre do ano 2000, por iniciativa dos jornalistas Flávio Carranca e Noedi Monteiro. Denominado no início Comitê Permanente de Jornalistas Negros, esse núcleo nasceu com a finalidade de dotar o Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo de uma política com relação á questão racial. No decorrer do primeiro semestre do ano 2001, foi realizada uma discussão política sobre pertinência da inclusão da palavra “negro” no nome da comissão. A maioria dos participantes apoiou a idéia de que ela poderia se tornar um obstáculo para a participação de não negros nas atividades a serem implementadas. Foi a partir dessa discussão que surgiu o nome de Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial.

Em julho de 2001, era publicado no site do sindicato um manifesto da Cojira-SP, assinado Amélia Nascimento, Benedito Egydio dos Santos, Esmeralda Ribeiro, Flávio Carranca, Francisco Soares, Maurício Pestana, Oswaldo de Camargo, Oswaldo Faustino, Paulo Vieira Lima, Ricardo Alexino Ferreira e Ronaldo Junqueira. Nesse texto, estão definidos os objetivos principais que nortearam até agora os trabalhos da comissão:” Convencidos de que a construção da cidadania plena para todos os brasileiros passa, necessariamente, pela obtenção da igualdade racial e que as diversas categorias profissionais têm uma importante contribuição a dar nesse sentido, nós, jornalistas negros, tomamos a iniciativa de nos organizar no Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo. Para isso, criamos a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial-Cojira, um órgão consultivo, com participação aberta a todos os interessados, que ajudará o Sindicato a ter uma atuação mais efetiva com relação à questão racial. Vamos participar de ações tanto no âmbito específico do jornalismo quanto em questões de caráter mais geral. Para conseguir esses objetivos, a Cojira tem algumas tarefas prioritárias:

·         Mapear e analisar a situação dos jornalistas negros no Estado de São Paulo;

·         Acompanhar com olhar crítico o noticiário relacionado à questão racial;

·         Estimular a capacitação dos profissionais que já atuam na imprensa para que tenham uma melhor compreensão da questão racial;

·         Criar oportunidades para que os jornalistas negros, em especial, e os jornalistas sem recursos financeiros, de maneira geral, tenham acesso aos mecanismos de aperfeiçoamento técnico-profissional;

·         Organizar um Banco de Dados sobre a questão racial e a imprensa negra;

·         Utilizar o Jornal Unidade e todos os meios de comunicação do Sindicato para divulgar matérias e discutir temas relacionados à questão racial.

 

Muitos desses objetivos ainda estão bem longe de serem alcançados, mas alguns passos foram dados nesse sentido. Em parceria com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, a Cojira promoveu em março de 2002 o relançamento da obra Imprensa Negra, de Clóvis Moura e Miriam Nicolau Ferrara, que foi doada para todas as bibliotecas públicas do estado, para dezenas de entidades do Movimento Negro, sindicatos e estudiosos da questão. A Cojira-SP também promoveu palestras sobre temas relativos a questão racial no sindicato e seus integrantes participaram de diversos eventos, além de concederem entrevistas a variados meios de comunicação. Várias matérias sobre temas de interesse para a Comunidade Negra foram publicadas no jornal Unidade, algumas elaboradas por integrantes da Cojira e outra realizadas pela equipe dom jornal a partir de sugestões da Cojira. Mais recentemente, em maio de 2004, uma parceria com Geledés Instituto da Mulher Negra permitiu o lançamento do livro “Espelho Infiel - o negro no jornalismo brasileiro”, coletânea organizada por Flávio Carrança e Rosane Borges como parte das atividades da comissão.

 

4. Proposições

·         Que sejam reconhecidas pelo conjunto da categoria as ações contra todo e qualquer tipo de discriminação e em defesa da igualdade étnica desenvolvidas pelo Núcleo de Comunicadores Afro-brasileiros do Rio Grande do Sul no Sindijor-RS, a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do SJPMRJ e a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do SJSP;

·         Que o Sindijor/RS, o SJSP e do SJPMRJ enquanto entidades máximas de representação dos jornalistas profissionais dos estados do Rio Grande do Sul e de São Paulo e do Município do Rio de Janeiro tomem iniciativas, para sensibilizar os jornalistas, tanto nas empresas de comunicação quanto nas faculdades de jornalismo, sobre as questões específicas dos afro-brasileiros e outros segmentos discriminados da população brasileira;

·         Realização de parcerias com instituições, entidades e organizações governamentais e da sociedade civil que venham a auxiliar no desenvolvimento de ações e políticas para atender as demandas históricas da comunidade negra brasileira, com o objetivo de promover a igualdade racial entre os trabalhadores dos meios de comunicação e também para melhorar a qualidade da cobertura jornalística dos temas relacionados com a etnia negra e seu viver;

·         Realização de censo do jornalismo brasileiro - em parceria com Universidades - com diversos recortes - gênero, racial, socioeconômico, mobilidade social, inatividade etc. - que além de abrir campo para pesquisas diversificadas propiciará um diagnóstico objetivo da categoria;

·         Que o XXXI Congresso Nacional dos Jornalistas recomende a todos os Sindicatos Estaduais filiados à FENAJ a criação e implementação de instâncias organizativas (Núcleos, Comissões, departamentos ou outras formas que venham a surgir) com a finalidade de implementar políticas de combate ao racismo e de promoção da igualdade. Que a FENAJ atue no sentido de aglutinar e coordenar nacionalmente as propostas e iniciativas surgidas dessas instâncias. E que a FENAJ estimule também discussões sobre a discriminação de índios e outras etnias e grupos sociais;

·         Que o XXXI Congresso Nacional de Jornalistas recomende a todos os Sindicatos Estaduais filiados à FENAJ a inclusão da auto-declaração étnico-racial nas fichas sindicais, medida que deve ser precedida por uma campanha de esclarecimento junto à categoria;

·         Apoio e execução de políticas focalistas (ações afirmativas, cotas) para empresas jornalísticas;

·         Acompanhamento e monitoramento do conteúdo da imprensa;

·         Estimular a produção de materiais (livros e outras publicações) que possam subsidiar o debate sobre jornalismo e relações raciais e estabelecer marcos importantes para a garantia efetiva dos direitos humanos;

·         Acompanhamento das discussões e aplicação das diretrizes dos organismos nacionais e internacionais (ONU, OEA, Conferências, DHESCs) que regem os princípios dos direitos humanos e relações raciais no Brasil e no mundo.

 

 

 

Tese - A democratização do Jornalismo - Propostas contra a privatização e a espetacularização da notícia

 

Autor:

·         Diretoria da FENAJ

 

1. Introdução

Desde o início da década de 80, os jornalistas brasileiros protagonizam um movimento nacional pela democratização da comunicação e pelo direito à informação que abriu frentes permanentes de lutas e conquistas em diversos níveis e momentos históricos destas duas décadas de redemocratização do Brasil. Todas foram alvo, em maior ou menor grau de aprofundamento, de teses apresentadas em Congressos anteriores. A face mais conhecida desta estratégia foi a criação, em 1984, da Frente Nacional de Lutas por Políticas Democráticas de Comunicação, experiência que antecedeu a Assembléia Nacional Constituinte e que resultou na constituição do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), instituído em 1995. Por meio da militância no FNDC, os jornalistas contribuíram para a construção de um programa que até hoje serve de referência em qualquer debate sobre políticas públicas na área das comunicações no Brasil.

Na segunda etapa desta experiência, o Fórum tem trabalhado diretamente para efetivar suas propostas. Uma das principais conquistas nesta retomada se deu a partir de 2002 com a participação ativa e a atuação coordenada de seus representantes na implantação do Conselho de Comunicação Social no Congresso Nacional, com a ocupação de seis das 13 vagas de titulares preenchidas por pessoas ligadas direta ou indiretamente ao FNDC. O Fórum também teve participação direta no atraso da aprovação do projeto de lei 175/2001, que prevê a entrada de 100% de capital estrangeiro nas empresas de TV a cabo. Em 2003, o Fórum realizou, durante o III Fórum Social Mundial o Seminário "Comunicação para o Exercício da Cidadania", com o desenvolvimento de 4 painéis e cinco oficinas que contaram com a participação de mais de 400 pessoas. No mês de abril, quatro de seus integrantes participaram do grupo de trabalho do Ministério das Comunicações que se propôs a acelerar o processo de autorização de 4,4 mil rádios comunitárias que protocolaram seus pedidos junto ao Ministério das Comunicações. Em junho, o Fórum apresentou ao governo uma proposta sobre a digitalização da comunicação social eletrônica e pautou junto à sociedade o debate sobre a regulamentação da regionalização da produção cultural, artística e jornalística no rádio e na TV e o empréstimo de recursos públicos a empresas de comunicação. O Fórum está agora reorganizado em oito estados com seus respectivos Comitês Regionais atuando tanto nas disputas por políticas públicas de comunicação como na organização e mobilização da sociedade para protagonizar suas experiências de comunicação.

Os jornalistas reafirmam nesse Congresso sua opção pela democratização da comunicação como frente privilegiada de atuação e na manutenção do FNDC e do referencial de seu programa – que está em processo de atualização – como agentes de articulação social e política nessa luta. Por outro lado, identifica-se nesse período histórico um momento propício para, dentro do conjunto de ações que caracterizam a atuação do FNDC, implementar a inflexão deste arcabouço a partir de segmento que poderíamos chamar de Democratização do Jornalismo, entendendo esse movimento como um foco específico e, não, uma nova ação. Se a democratização da comunicação, no nosso entendimento, precisa ser uma ação que transborda os interesses de jornalistas e outros trabalhadores da área da comunicação, o jornalismo e, consequentemente, sua democratização possuem uma especificidade onde a contribuição dos jornalistas e da FENAJ será sempre da maior relevância.

Influenciado pelas tendências internacionais de espetacularização da notícia, privatização da opinião pública e a “commoditização” da informação, o jornalismo brasileiro está mergulhado em um ambiente de banalização e descompromisso que traz de volta os tempos de Chatô, onde o interesse público no jornalismo mantinha-se sempre refém de interesses patrimonialistas, corporativos ou cartoriais. Ao mesmo tempo, o debate sobre os conteúdos e a qualidade da programação da TV, a discussão sobre a regionalização da produção cultural, artística e jornalística e o potencial democratizante da digitalização da comunicação social eletrônica estabelecem novas bases para se reverter o quadro estabelecido e orientam os jornalistas brasileiros a destacar ações específicas que promovam a luta pela democratização da comunicação a partir da democratização do jornalismo. Mais do que um processo de longo prazo, este pilar é um dos pontos centrais de sustentação de um projeto estratégico da FENAJ, a ser formulado e desenvolvido por sua direção.

 

2. Objetivos

É objetivo geral dessa ação a radicalização do projeto de democratização implementado pelo Fórum Nacional Pela Democratização da Comunicação (FNDC), provocando reflexões e experiências que somente os jornalistas poderiam propor.

Destacamos como objetivos estratégicos:

·         Defender o jornalismo como atividade específica e potencialmente emancipatória – A democratização do jornalismo passa pela tênue diferenciação do necessário controle público e da execrável censura. Para se conseguir esse equilíbrio democrático é necessária uma eficiente conceituação do jornalismo e de seu papel social. Adotando a premissa de Adelmo Genro Filho, o jornalismo é uma forma de conhecimento singular que, independentemente de sua origem de classe pode exercer um papel transformador e humanizador. Ao contrário das teses pessimistas e imobilizadoras que atribuem à atividade jornalística uma ontológica e irremediável natureza manipulatória, adotamos a fundamentação de Genro quando diz que “podemos conceber a possibilidade de um jornalismo informativo – que se utilize de muitas conquistas técnicas e funcionais adotadas pelos jornais burgueses – com outra perspectiva de classe e ideologia.”. Assim, acreditamos que é possível e cada vez mais necessário afirmar um atributo democrático ao fazer jornalístico;

·         Garantir os aspectos públicos inerentes a um jornalismo democrático e plural – Um dos grandes problemas oriundos da atividade jornalística atual é a sua característica privada e, muitas vezes, partidária de atuação. A natureza pública dessa atividade exige a reconstrução de uma esfera que não se confunda nem com a dimensão estatal da sociedade nem tampouco com o espaço privado do indivíduo;

·         Estimular o surgimento de uma imprensa representativa dos segmentos excluídos da mídia tradicional e a diversidade de versões – A estruturação e o desenvolvimento dos veículos de comunicação pública, comunitária e segmentada é vital para a democracia. Entretanto, o jornalismo informativo exige uma esfera pública, democrática e revigorada onde a pluralidade da sociedade esteja garantida. Isso significa que ao lado de uma grande imprensa futuramente democratizada devemos resguardar o espaço de um segmento de informação que garanta o acesso e a produção de informação às camadas marginalizadas e excluídas da sociedade;

·         Impedir que a agenda pública do Brasil seja pautada pela lógica do jornalismo praticado pelos conglomerados transnacionais de mídia – Com a entrada de capital estrangeiro na mídia brasileira e a maior incidência das empresas de telecomunicações na disputa pelo controle da produção e distribuição de conteúdo, os jornalistas brasileiros estarão sujeitos ao predomínio de uma visão jornalística da realidade em parte responsável pelos erros e abusos cometidos pela imprensa internacional nos últimos eventos globais. Evitar que o noticiário nacional seja contaminado pelos interesses comerciais e ideológicos destes grupos é uma forma de contribuir para a democracia, valorizando o jornalismo.

 

3. Proposições

Para a implementação desses objetivos deve-se:

·         Promover a informação plural e o debate público sistemático sobre ética, liberdade de imprensa e técnicas jornalísticas;

·         Formar e capacitar profissionais, docentes e estudantes de jornalismo para a democratização do jornalismo e da comunicação;

·         Estabelecer mecanismos de controle interno das relações de trabalho nas redações como forma de contribuir com a implementação efetiva do Conselho Federal de Jornalismo (CFJ);

·         Estabelecer formas de controle público sobre a atuação da imprensa a partir da criação de instâncias mediadoras, como os Conselhos Municipais e Estaduais de Comunicação;

·         Revisar o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, promovendo um debate nacional sobre a conduta do profissional da imprensa;

·         Combater a espetacularização do jornalismo na produção das notícias e na conduta dos profissionais de imprensa;

·         Incentivar a criação de sistemas públicos municipais de comunicação, junto ao poder publico local, com participação da sociedade em sua gestão.

 

4. Projeto Ombudsman da Mídia

Algumas ações práticas para se democratizar o jornalismo no Brasil:

 

4.1.  Televisão

Com apoio de produtoras de vídeo e cinema, captando recursos a partir das leis de incentivo, a FENAJ viabilizará a produção de um programa semanal de 1 hora que trate de temas de interesse de jornalistas, jornalismo e mídia. Sua transmissão e/ou distribuição poderá ser concretizada com o apoio de entidades como Radiobrás, ABTU, Abepec, Astral ou TVs comunitárias. Nas grades de programação das operadoras de TV a cabo, poderá ser veiculado a partir de acordo com as mantenedoras dos canais básicos de utilização gratuita. Diante da realidade da regionalização no rádio e na TV, versões locais do mesmo programa poderão ser exploradas pelos sindicatos.

Em parceria com o FNDC, o Congresso Brasileiro de Cinema e a Campanha "Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania", captando recursos a partir das leis de incentivo, a FENAJ articulará a realização de um programa semanal de 30 minutos que debaterá o conteúdo da televisão brasileira. O foco central será a qualidade da programação da televisão a partir dos princípios constitucionais – nos moldes da proposta de Ombudsman da Televisão Brasileira, especificada no documento “Bases de um Programa para a Democratização da Comunicação no Brasil” do FNDC.

 

4.2. Rádio

A FENAJ e seus sindicatos estaduais apoiarão a produção de programas de rádio em emissoras públicas e estatais. Os formatos sugeridos são os de mesas de debate ou entrevistas semanais que abordem temais ligados ao jornalismo e à comunicação social. O conteúdo deverá ser disponibilizado gratuitamente às emissoras de rádio comunitárias e universitárias que o requisitarem.

Em parceria com escolas de comunicação, a FENAJ incentivará a participação de estudantes de pós-graduação em radiojornalismo em projetos inovadores na experimentação de linguagens e técnicas de reportagem.

 

4.3. Mídia Impressa

Com a sustentação de seus sindicatos estaduais, e a captação de verbas de empresas privadas e estatais, a FENAJ editará um jornal mensal de distribuição nacional, no formato standard, com reportagens a respeito do jornalismo, com ênfase nas informações regionais. O conteúdo ficará a cargo da rede de jornalistas das assessorias de imprensa dos sindicatos, bem como de voluntários selecionados pela equipe de edição. A coordenação da produção ficará a cargo da Executiva da FENAJ. A mesma estrutura poderá contribuir para abastecer uma agência nacional de notícias sobre jornalismo, que intercambie informações e matérias com projetos semelhantes.

Em parceria com escolas de comunicação, buscando o apoio do Fórum de Professores de Jornalismo e da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação (Intercom), a FENAJ estimulará a publicação de uma revista acadêmica trimestral sobre jornalismo, democratização da comunicação e políticas públicas de comunicação.

 

4.4. Internet e tecnologias da informação

Por meio da página da FENAJ na internet, será criado um espaço onde uma equipe de jornalistas voluntários, com o apoio do Fórum de Professores de Jornalismo, por exemplo, fará a análise sistemática do noticiário nacional, com ênfase nas técnicas jornalísticas e na editorialização dos conteúdos – textos e imagens. O mesmo será enviado aos jornalistas em um formato de boletim semanal. No mesmo espaço, será estimulada a participação em tempo real de usuários (profissionais e estudantes) previamente cadastrados.

A FENAJ criará listas de discussão temáticas, coordenadas e estimuladas pelos departamentos específicos. Assim, todos os jornalistas brasileiros poderão opinar e receber informações a cerca da profissão e de temas sobre imprensa e mídia. Alguns temas sugeridos: Liberdade de Imprensa e de Expressão, Democratização da Comunicação, Precarização das Relações de Trabalho, Regulação e Políticas Públicas de Comunicação, Assessoria de Imprensa, Qualidade do Ensino de Jornalismo, Organização e Mobilização Sindical, etc.

Em parceria com o Fórum de Professores de Jornalismo, a FENAJ criará o portal “Jornalética”, destinado exclusivamente ao debate sobre ética e deontologia no jornalismo, com ênfase no debate sobre valores desprezados pelas empresas jornalísticas. O mesmo terá uma seção específica para denúncias – anônimas ou públicas - de arbitrariedades cometidas pelos veículos de comunicação no cerceamento da livre circulação de informações de interesse público.

Em parceria com escolas de comunicação, a FENAJ incentivará a participação de estudantes de pós-graduação em webjornalismo que apresentem projetos inovadores na experimentação de novas tecnologias aplicadas à reportagem/edição, com destaque para técnicas de reportagem assistida por computador (CAR).

 

 

 

Tese - Constituição de um Fundo de Apoio à Radiodifusão Comunitária e Universitária

 

Autor:

·         Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal

 

Apesar da repressão, mantida e agravada pelo Governo Lula, contra os movimentos sociais que assumem a prática legítima e inquestionável da comunicação comunitária, e de uma legislação antidemocrática, as emissoras comunitárias vêm se multiplicando, muito embora as condições para o seu funcionamento, qualificação e expansão sejam profundamente adversas. A comunicação comunitária, além de enfrentar a repressão policial e uma lei que a coíbe, depara-se com uma penúria sistemática, impedindo sua regularidade e estabilidade.

Enquanto a mídia privada recebe todos os favores creditícios do Estado, a comunicação comunitária enfrenta a polícia e a ausência de mecanismos que permitam-lhe consolidação e qualificação. Tais mecanismos, inclusive, poderiam representar ampliação efetiva do mercado de trabalho, em fase de contração.

Sendo assim, os jornalistas se comprometem a lutar pela criação de um Fundo de Apoio à Radiodifusão Comunitária e Universitária Pública, constituído por um percentual a ser definido das verbas publicitárias oficiais destinadas à mídia comercial, sem prejuízo de outras fontes de recursos.

Nota-se um esforço por parte de universidades públicas para também operar na área da comunicação, tendência salutar que, igualmente, vem enfrentando a penúria de recursos que afeta também a educação pública superior, como conseqüência do desmonte do Estado, pregado pelo neoliberalismo.

Por isto, é indispensável que também a comunicação universitária, capaz de representar pluralidade e regionalização informativas, também seja atendida pelo Fundo aqui proposto como forma de ampliar as condições de atendimento do direito a informação da sociedade brasileira, hoje proibida, de fato, da leitura de jornal e revista, submetida a uma brutal desinformação pela ditadura midiática comercial.

Os jornalistas se comprometem a lutar pela criação de um Fundo de Apoio à Radiodifusão Comunitária e Universitária Pública, administrado por um conselho formado por representantes dos trabalhadores e da sociedade, que garanta meios de fiscalização e transparência cumprindo efetivamente as finalidades constitucionais.

 

 

 

Tese - Expansão e Consolidação das Mídias Públicas (educativa, legislativa, universitária e comunitária) – texto substituto

 

Autor:

·         Aluisio Lopes (Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais), com adendo de Osnaldo Mo