09 de Fevereiro de 2010
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Artigo 25/09/2006 | 20:05
Mídia e poder
 
*Marilena Chauí

I. O poder da mídia: aspectos gerais

Podemos focalizar a questão do exercício do poder pelos meios de comunicação de massa sob dois aspectos principais: o econômico e o ideológico.

Do ponto de vista econômico, os meios de comunicação são empresas privadas, mesmo quando, como é o caso do Brasil, rádio e televisão sejam concessões estatais, pois estas são feitas a empresas privadas. Ou seja, os meios de comunicação são uma indústria (a indústria cultural) regida pelos imperativos do capital. Tanto é assim que, sob a ação da forma econômica neoliberal ou da chamada globalização, a indústria da comunicação passou por profundas mudanças estruturais, pois “num processo nunca visto de fusões e aquisições, companhias globais ganharam posições de domínio na mídia.” Além da forte concentração (os oligopólios beiram o monopólio), também é significativa a presença, no setor das comunicações, de empresas que não tinham vínculos com ele nem tradição nessa área. O porte dos investimentos e a perspectiva de lucros jamais vistos levaram grupos proprietários de bancos, indústria metalúrgica, indústria elétrica e eletrônica, fabricantes de armamentos e aviões de combate, indústria de telecomunicações a adquirir, mundo afora, jornais, revistas, serviços de telefonia, rádios e televisões, portais de internet, satélites, etc.

Essas mudanças nos fazem compreender que o poder econômico, graças ao qual os meios de comunicação instituem o espaço e o tempo públicos, não é exercido por agentes que deliberam e agem em vista de seus próprios interesses e fins particulares. Como observam com grande pertinência Maria Rita Kehl e Eugênio Bucci, o sujeito do poder não são os proprietários dos meios de comunicação nem os Estados nem grupos e partidos políticos, mas simplesmente (e gigantescamente) o próprio capital. O poder midiático, escrevem eles, é um “mecanismo de tomada de decisões que permite ao modo de produção capitalista, transubstanciado em espetáculo, sua reprodução automática”. Os proprietários dos meios de comunicação são suportes do capital. Evidentemente, não se trata de negligenciar o poder econômico dos senhores dos conglomerados midiáticos nem sua força para produzir ações ou efeitos sociais, políticos e culturais. No entanto, num nível mais profundo, trata-se de compreender, como mostram as análises de Kehl e Bucci, que essas ações exibem poder, mas não o constituem, pois sua constituição encontra-se no modo de produção do capital.

Do ponto de vista ideológico, podemos tomar como referência a afirmação de Claude Lefort de que a ideologia contemporânea é uma ideologia invisível. A ideologia burguesa, diz Lefort, tinha a peculiaridade de indicar quem eram seus autores ou agentes, era proferido do alto e pretendia ser discurso sobre o social e para o social. A ideologia contemporânea é invisível por que não parece construída nem proferida por um agente determinado, convertendo-se num discurso anônimo e impessoal, que parece brotar espontaneamente da sociedade como se fosse o discurso do social: Assim como o poder econômico aparece localizado nos proprietários das empresas da indústria da comunicação, mas é o poder ilocalizado do capital, assim também, mas de maneira invertida (já que estamos no campo da ideologia), as representações ou imagens que constituem a ideologia aparecem desprovidas de localização, embora estejam precisamente localizadas nos centros emissores da comunicação.

Penso que a ideologia invisível só se torna compreensível como exercício de poder se a considerarmos por um outro prisma, aquele que temos denominado com a expressão ideologia da competência. Ou seja, a peculiaridade da ideologia contemporânea está no seu modo de aparecer sob a forma anônima e impessoal como discurso do conhecimento e sua eficácia social, política e cultural funda-se na crença na racionalidade técnico-científica. Em outras palavras, o discurso ideológico pode aparecer como discurso do social porque o social aparece constituído e regulado por essa racionalidade.

A ideologia da competência pode ser resumida da seguinte maneira: não é qualquer um que pode em qualquer lugar e em qualquer ocasião dizer qualquer coisa a qualquer outro. O discurso competente determina de antemão quem tem o direito de falar e quem deve ouvir, assim como pré-determina os lugares e as circunstâncias em que é permitido falar e ouvir, e, finalmente, define previamente a forma e o conteúdo do que deve ser dito e precisa ser ouvido. Essas distinções têm como fundamento uma distinção principal, aquela que divide socialmente os detentores de um saber ou de um conhecimento (científico, técnico, religioso, político, artístico), que podem falar e têm o direito de mandar e comandar, e os desprovidos de saber, que devem ouvir e obedecer. Numa palavra, a ideologia da competência institui a divisão social entre os competentes, que sabem, e os incompetentes, que obedecem.

Enquanto discurso do conhecimento, essa ideologia opera com a figura do especialista. Os meios de comunicação não só se alimentam dessa figura, mas não cessam de instituí-la como sujeito da comunicação. O especialista competente é aquele que, no rádio, na TV, na revista, no jornal ou no multimídia, divulga saberes, falando das últimas descobertas da ciência ou nos ensinando a agir, pensar, sentir e viver. O especialista competente nos ensina a bem fazer sexo, jardinagem, culinária, educação das crianças, decoração da casa, boas maneiras, uso de roupas apropriadas em horas e locais apropriados, como amar Jesus e ganhar o céu, meditação espiritual, como ter um corpo juvenil e saudável, como ganhar dinheiro e subir na vida. O principal especialista, porém, não se confunde com nenhum dos anteriores, mas é uma espécie de síntese, construída a partir das figuras precedentes: é aquele que explica e interpreta as notícias e os acontecimentos econômicos, sociais, políticos, culturais, religiosos e esportivos, aquele que devassa, eleva e rebaixa entrevistados, zomba, premia e pune calouros -- em suma, o “formador de opinião” e o “comunicador”. Ideologicamente, portanto, o poder da comunicação de massa não é igual ou semelhante ao da antiga ideologia burguesa, que realizava uma inculcação de valores e idéias. Dizendo-nos o que devemos pensar, sentir, falar e fazer, afirma que nada sabemos e seu poder se realiza como intimidação social e cultural.

Todavia, é preciso compreender o que torna possível essa intimidação e a eficácia da operação dos especialistas. O que as possibilita é, de um lado, a presença cotidiana (explícita ou difusa), em todas as esferas de nossa existência, da competência como forma que confere sentido racional às divisões, assimetrias, desigualdades e hierarquias sociais – em suma, a interiorização da ideologia pela sociedade; e, de outro, sua manifestação reiterada e perfeita na estrutura dos meios de comunicação, que, por meio do aparato tecnológico e dos procedimentos de encenação e de persuasão, aparecem com a capacidade mágica de fazer acontecer o mundo. Ora, essa capacidade é a competência suprema, a forma máxima do poder: o poder de criar a realidade. E esse poder é ainda maior quando, graças a instrumentos técnico-científicos, essa realidade é virtual ou a virtualidade é considerada real.

II. O poder da mídia: destruição da esfera pública da opinião

Faz parte da vida da grande maioria da população brasileira ser espectadora de um tipo de programa de televisão no qual a intimidade das pessoas é o objeto central do espetáculo: programas de auditório, de entrevistas e de debates com adultos, jovens e crianças contando suas preferências pessoais desde o sexo até o brinquedo, da culinária ao vestuário, da leitura à religiosidade, do ato de escrever ou encenar uma peça teatral aos hábitos de lazer e cuidados corporais.

As ondas sonoras do rádio e as transmissões televisivas tornam-se cada vez mais consultórios sentimental, sexual, gastronômico, geriátrico, ginecológico, culinário, de cuidados com o corpo (ginástica, cosméticos, vestuário, medicamentos), de jardinagem, carpintaria, bastidores da criação artística, literária e da vida doméstica. Os entrevistados e debatedores, os competidores dos torneios de auditório, os que aparecem nos noticiários, todos são convidados e mesmo instados com vigor a que falem de suas preferências, indo desde sabores de sorvete até partidos políticos, desde livros e filmes até hábitos sociais. Não é casual que os noticiários, no rádio e na televisão, ao promoverem entrevistas em que a notícia é intercalada com a fala dos direta ou indiretamente envolvidos no fato, tenham sempre repórteres indagando a alguém: "o que você sentiu/sente com isso?" ou "o que você achou/acha disso?" ou "você gosta? não gosta disso?". Não se pergunta aos entrevistados o que pensam ou o que julgam dos acontecimentos, mas o que sentem, o que acham, se lhes agrada ou desagrada. Há programas de entrevista no rádio e na televisão que ou simulam uma cena doméstica - um almoço, um jantar - ou se realizam nas casas dos entrevistados durante o café da manhã, o almoço ou o jantar, nos quais a casa é exibida, os hábitos cotidianos são descritos e comentados, álbuns de família ou a própria são mostrados ao vivo e em cores.

Também se tornou um hábito nacional jornais e revistas especializarem-se cada vez mais em telefonemas a "personalidades" indagando-lhes sobre o que estão lendo no momento, que filme foram ver na última semana, que roupa usam para dormir, qual a lembrança infantil mais querida que guardam na memória, que música preferiam aos 15 anos de idade, o que sentiram diante de uma catástrofe nuclear ou ecológica, ou diante de um genocídio ou de um resultado eleitoral, qual o sabor do sorvete preferido, qual o restaurante predileto, qual o perfume desejado. Os assuntos se equivalem, todos são questão de gosto ou preferência, todos se reduzem à igual banalidade do "gosto" ou "não gosto", do "achei ótimo" ou "achei horrível".

Todos esses fatos nos conduzem a uma conclusão: a mídia está imersa na cultura do narcisismo.

Desta, um exemplo contundente é o programa da Globo, Big Brother. A maioria do público brasileiro talvez não saiba o que é e quem é Big Brother, ou o Grande Irmão (a melhor tradução seria Irmão mais Velho). É uma personagem do romance de George Orwell, 1984. Escrito em 1948 (data invertida para 1984), o romance se passa numa sociedade totalitária, na qual todos são permanentemente vigiados por câmeras de televisão, sendo presos e torturados quando infringem alguma regra ou lei e submetidos a violentos processos físicos e psíquicos de condicionamento para não voltar a transgredir. Reinam a solidão, a impossibilidade da comunicação e o medo comunicar-se. Como forma de compensação, todos os dias e várias vezes por dia, as pessoas “conversam” com uma tela de televisão na qual há um rosto bondoso, o Big Brother, o Grande Irmão (ou o Irmão mais Velho), que os vigia e lhes fala sem, na verdade, dizer-lhes coisa alguma, senão lhes dar ordens. Esse extraordinário e terrível romance sobre o controle de corpos, corações e mentes dos indivíduos por sistemas cruéis de vigilância em sociedades totalitárias foi banalizado, virando um programa de televisão “engraçado e divertido”. Um entretenimento narcisista.

Como observa Christopher Lash, em A Cultura do Narcisismo, os mass media tornaram irrelevantes as categorias da verdade e da falsidade substituindo-as pelas noções de credibilidade ou plausibilidade e confiabilidade – para que algo seja aceito como real basta que apareça como crível ou plausível, ou como oferecido por alguém confiável Os fatos cederam lugar a declarações de "personalidades autorizadas", que não transmitem informações, mas preferências e estas se convertem imediatamente em propaganda. Como escreve Lash, "sabendo que um público cultivado é ávido por fatos e cultiva a ilusão de estar bem informado, o propagandista moderno evita slogans grandiloqüentes e se atém a ‘fatos’, dando a ilusão de que a propaganda é informação”.

Qual a base de apoio da credibilidade e da confiabilidade? A resposta encontra-se num outro ponto comum aos programas de auditório, às entrevistas, aos debates, às indagações telefônicas de rádios, revistas e jornais, aos comerciais de propaganda. Trata-se do apelo à intimidade, à personalidade, à vida privada como suporte e garantia da ordem pública. Em outras palavras, os códigos da vida pública passam a ser determinados e definidos pelos códigos da vida privada, abolindo-se a diferença entre espaço público e espaço privado.

As relações interpessoais, as relações intersubjetivas e as relações grupais aparecem com a função de ocultar ou de dissimular as relações sociais enquanto sociais e as relações políticas enquanto políticas, uma vez que a marca das relações sociais e políticas é serem determinadas pelas instituições sociais e políticas, ou seja, são relações mediatas, diferentemente das relações pessoais, que são imediatas, isto é, definidas pelo relacionamento direto entre pessoas e por isso mesmo nelas os sentimentos, as emoções, as preferências e os gostos têm um papel decisivo. As relações sociais e políticas, que são mediações referentes a interesses e a direitos regulados pelas instituições, pela divisão social das classes e pela separação entre o social e o poder político, perdem sua especificidade e passam a operar sob a aparência da vida privada, portanto, referidas a preferências, sentimentos, emoções, gostos, agrado e aversão.

Não é casual, mas uma conseqüência necessária dessa privatização do social e do político, a destruição de uma categoria essencial das democracias, qual seja a da opinião pública. Esta, em seus inícios liberais, era definida como a expressão, no espaço público, de uma reflexão individual ou coletiva sobre uma questão controvertida e concernente ao interesse ou ao direito de uma classe social, de um grupo ou mesmo da maioria. A opinião pública era um juízo emitido em público sobre uma questão relativa à vida política, era uma reflexão feita em público e por isso definia-se como uso público da razão e como direito à liberdade de pensamento e de expressão.

É sintomático que, hoje, se fale em "sondagem de opinião". Com efeito, a palavra sondagem indica que não se procura a expressão pública racional de interesses ou direitos e sim que se vai buscar um fundo silencioso, um fundo não formulado e não refletido, isto é, que se procura fazer vir à tona o não-pensado, que existe sob a forma de sentimentos e emoções, de preferências, gostos, aversões e predileções, como se os fatos e os acontecimentos da vida social e política pudessem vir a se exprimir pelos sentimentos pessoais. Em lugar de opinião pública, tem-se a manifestação pública de sentimentos.

Nada mais constrangedor e, ao mesmo tempo, nada mais esclarecedor do que os instantes em que o noticiário coloca nas ondas sonoras ou na tela os participantes de um acontecimento falando de seus sentimentos, enquanto locutores explicam e interpretam o que se passa, como se os participantes fossem incapazes de pensar e de emitir juízo sobre aquilo de que foram testemunhas diretas e partes envolvidas. Constrangedor, porque o rádio e a televisão declaram tacitamente a incompetência dos participantes e envolvidos para compreender e explicar fatos e acontecimentos de que são protagonistas. Esclarecedor porque esse procedimento permite, no instante mesmo em que se dão, criar a versão do fato e do acontecimento como se fossem o próprio fato e o próprio acontecimento. Assim, uma partilha é claramente estabelecida: os participantes “sentem”, portanto, não sabem nem compreendem (não pensam); em contrapartida, o locutor pensa, portanto, sabe e, graças ao seu saber, explica o acontecimento.

É possível perceber três deslocamentos sofridos pela idéia e prática da opinião pública: o primeiro, como salientamos, é a substituição da idéia de uso público da razão para exprimir interesses e direitos de um indivíduo, um grupo ou uma classe social pela idéia de expressão em público de sentimentos, emoções, gostos e preferências individuais; o segundo, como também observamos, é a substituição do direito de cada um e de todos de opinar em público pelo poder de alguns para exercer esse direito, surgindo, assim, a curiosa expressão “formador de opinião”, aplicada a intelectuais, artistas e jornalistas; o terceiro, que ainda não havíamos mencionado, decorre de uma mudança na relação entre s vários meios de comunicação sob os efeitos das tecnologias eletrônica e digital e da formação de oligopólios mediáticos globalizados (alguns autores afirmam que o século XXI começou com a existência de 10 ou 12 conglomerados de mass media de alcance global). Esse terceiro deslocamento se refere à forma de ocupação do espaço da opinião pública pelos profissionais dos meios de comunicação.

O caso mais interessante é, sem dúvida, o do jornalismo impresso. Em tempos passados, cabia aos jornais a tarefa noticiosa e um jornal era fundamentalmente um órgão de notícias. Sem dúvida, um jornal possuía opiniões e as exprimia: isso era feito, de um lado, pelos editorais e por artigos de não-jornalistas, e, de outro, pelo modo de apresentação da notícia (escolha das manchetes e do “olho”, determinação da página em que deveria aparecer e na vizinhança de quais outras, do tamanho do texto, da presença ou ausência de fotos, etc.). Ora, com os meios eletrônicos e digitais e a televisão, os fatos tendem a ser noticiados enquanto estão ocorrendo, de maneira que a função noticiosa do jornal é prejudicada, pois a notícia impressa é posterior à sua transmissão pelos meios eletrônicos e pela televisão. Ou na linguagem mais costumeira dos meios de comunicação: no mercado de notícias, o jornalismo impresso vem perdendo competitividade (alguns chamam a isso de progresso; outros, de racionalidade inexorável do mercado!).

O resultado dessa situação foi duplo: de um lado, a notícia é apresentada de forma mínima, rápida e, freqüentemente, inexata – o paradigma é o jornal US Today e o modelo conhecido como News Letter – e, de outro, deu-se a passagem gradual do jornal como órgão de notícias a órgão de opinião, ou seja, os jornalistas comentam e interpretam as notícias, opinando sobre elas. Gradualmente desaparece uma figura essencial do jornalismo: o jornalismo investigativo, que cede lugar ao jornalismo assertivo ou opinativo. Os jornalista passam, assim, o ocupar o lugar que, tradicionalmente, cabia a grupos e classes sociais e a partidos políticos e, além disso, sua opinião não fica restrita ao meio impresso, mas passa a servir como material para os noticiários de rádio e televisão, ou seja, nesses noticiários, a notícia é interpretada e avaliada graças à referência às colunas dos jornais.

Os deslocamentos mencionados e, particularmente, este último, têm conseqüências graves sob dois aspectos principais:

1) uma vez que o jornalista concentra poderes e forma a opinião pública, pode sentir-se tentado a ir além disso e criar a própria realidade, isto é, sua opinião passa a ter o valor de um fato e a ser tomada como um acontecimento real – a esse respeito, creio que vale a pena mencionar três artigos referentes a esse risco nos últimos acontecimentos políticos brasileiros, o artigo da jornalista Marina Amaral, na revista Caros Amigos, número especial de novembro de 2005, “Como são produzidas as notícias”, o artigo do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, juntamente com sua entrevista, no livro organizado por Juarez Guimarães, Leituras da crise, e o dossiê publicado na internet, pelos jornalistas independentes ou do JIBRA, “A caixa preta da imprensa”.

2) os efeitos da concentração do poder econômico mediático. Os meios de comunicação tradicionais (jornal, rádio, cinema, televisão) sempre foram propriedade privada de indivíduos e grupos, não podendo deixar de exprimir seus interesses particulares ou privados, ainda que isso sempre tenha imposto problemas e limitações à liberdade de expressão, que fundamenta a idéia de opinião pública. Hoje, porém, os 10 ou 12 conglomerados de alcance global controlam não só os meios tradicionais, mas também os novos meios eletrônicos e digitais, e avaliam em termos de custo-benefício às vantagens e desvantagens do jornalismo escrito ou da imprensa, podendo liquidá-la, se não acompanhar os ares do tempo. Estudos mostram que, para tentar salvar-se, “o jornalismo está ficando cada vez mais rápido, inexato e barato” e que, para tentar conservar um público leitor, julga dever dirigir-se a públicos específicos, “havendo, assim, ascenção do partidarismo, que, no entanto, deixa o leitor ainda mais desconfiado em relação às notícias”. Para fazer jornalismo opinativo ou assertivo, rápido e barato, o jornalista passa “a fazer buscas assertivas globais [via Internet e consulta a “personalidades”], de forma aleatória e automática, e a mesclar informações confiáveis com informações não confiáveis”.

Esses dois aspectos incidem diretamente sobre a transformação da verdade e da falsidade em questão de credibilidade e plausibilidade. Rápido, barato, inexato, partidarista, mescla de informações aleatoriamente obtidas e pouco confiáveis, não investigativo, opinativo ou assertivo, detentor da credibilidade e da plausibilidade, o jornalismo se tornou protagonista da destruição da opinião pública.

Essa destruição é, sem dúvida, favorecida pela economia e a política neoliberais. Como se sabe, o Estado neoliberal distancia-se do modelo do Estado do Bem-Estar Social, no qual, como explica Francisco de Oliveira, o poder público regulamentava e fiscalizava a economia e os fundos públicos eram dirigidos não somente para o financiamento do capital, mas também para o da reprodução da força de trabalho, por meio dos direitos sociais ou do salário indireto. O esgotamento desse modelo político decorre de duas causas principais: de um lado, o endividamento do Estado ou o déficit fiscal, de outro, a pressão dos grupos capitalistas dirigentes, por meio de seus teóricos, contra a regulação estatal da economia e sobretudo contra o financiamento dos direitos sociais dos trabalhadores, exigindo que a totalidade dos fundos públicos seja dirigida ao capital. Implanta-se o Estado neoliberal e com ele, o encolhimento do espaço público e o alargamento do espaço privado, isto é, o mercado.

III. O poder da mídia: a desinformação

A dimensão econômica e social da nova forma do capital é inseparável de uma transformação sem precedentes na experiência do espaço e do tempo, designada por David Harvey como a “compressão espaço-temporal”. A fragmentação e a globalização da produção econômica engendram dois fenômenos contrários e simultâneos: de um lado, a fragmentação e dispersão espacial e temporal e, de outro, sob os efeitos das tecnologias eletrônicas e de informação, a compressão do espaço – tudo se passa aqui, sem distâncias, diferenças nem fronteiras – e a compressão do tempo – tudo se passa agora, sem passado e sem futuro. Em outras palavras, fragmentação e dispersão do espaço e do tempo condicionam sua reunificação sob um espaço e um tempo indiferenciados - um espaço plano de imagens temporalmente fugazes.

Paul Virilio fala de acronia e atopia, ou da desaparição das unidades sensíveis do tempo e do espaço vivido sob os efeitos da revolução eletrônica e informática. A profundidade do tempo e seu poder diferenciador desaparecem sob o poder do instantâneo. Por seu turno, a profundidade de campo, que define o espaço da percepção, desaparece sob o poder de uma localidade sem lugar e das tecnologias de sobrevôo. Vivemos sob o signo da telepresença e da teleobservação, que impossibilitam diferenciar entre a aparência e o sentido, o virtual e o real, pois tudo nos é imediatamente dado sob a forma da transparência temporal e espacial das aparências, apresentadas como evidências.

A desinformação é o principal resultado da maioria dos noticiários nos jornais, no rádio e na televisão, pois, de modo geral, as notícias são apresentadas de maneira a impedir que se possa localizá-la no espaço e no tempo.
Ausência de referência espacial ou atopia: as diferenças próprias do espaço percebido (perto, longe, alto, baixo, grande, pequeno) são apagadas; o aparelho de rádio e a tela da televisão tornam-se o único espaço real. As distâncias e proximidades, as diferenças geográficas e territoriais são ignoradas, de tal modo que algo acontecido na China, na Índia, nos Estados Unidos ou em Campina Grande apareça igualmente próximo e igualmente distante.

Ausência de referência temporal ou acronia: os acontecimentos são relatados como se não tivessem causas passadas nem efeitos futuros; surgem como pontos puramente atuais ou presentes, sem continuidade no tempo, sem origem e sem conseqüências; existem enquanto forem objetos de transmissão e deixam de existir se não forem transmitidos. Têm a existência de um espetáculo e só permanecem na consciência dos ouvintes e espectadores enquanto permanecer o espetáculo de sua transmissão.

Como operam efetivamente os noticiários?

Em primeiro lugar, estabelecem diferenças no conteúdo e na forma das notícias de acordo com o horário da transmissão e o público, rumando para o sensacionalismo e o popularesco nos noticiários diurnos e do início da noite e buscando sofisticação e aumento de fatos, nos noticiários de fim de noite. Em segundo, por seleção das notícias, omitindo aquelas que possam desagradar o patrocinador ou os poderes estabelecidos. Em terceiro, pela construção deliberada e sistemática de uma ordem apaziguadora: em seqüência, apresentam, no início, notícias locais, com ênfase nas ocorrências policiais, sinalizando o sentimento de perigo; a seguir, entram as notícias regionais, com ênfase em crises e conflitos políticos e sociais, sinalizando novamente o perigo; passam às notícias internacionais, com ênfase em guerras e cataclismos (maremoto, terremoto, enchentes, furacões), ainda uma vez sinalizando perigo; mas concluem com as notícias nacionais, enfatizando as idéias de ordem e segurança, encarregadas de desfazer o medo produzido pelas demais notícias. E, nos finais de semana, terminam com notícias de eventos artísticos ou sobre animais (nascimento de um ursinho, fuga e retorno de um animal em cativeiro, proteção a espécies ameaçadas de extinção), de maneira a produzir o sentimento de bem-estar no espectador pacificado, sabedor de que, apesar dos pesares, o mundo vai bem, obrigado.

Paradoxalmente, rádio e televisão podem oferecer-nos o mundo inteiro num instante, mas o fazem de tal maneira que o mundo real desaparece, restando apenas retalhos fragmentados de uma realidade desprovida de raiz no espaço e no tempo. Como, pela atopia das imagens, desconhecemos as determinações econômico-territoriais (geográficas, geopolíticas, etc.) e como, pela acronia das imagens, ignoramos os antecedentes temporais e as conseqüências dos fatos noticiados, não podemos compreender seu verdadeiro significado. Essa situação se agrava com a TV a cabo, com emissoras dedicadas exclusivamente a notícias, durante 24 horas, colocando num mesmo espaço e num mesmo tempo (ou seja, na tela) informações de procedência, conteúdo e significado completamente diferentes, mas que se tornam homogêneas pelo modo de sua transmissão. O paradoxo está em que há uma verdadeira saturação de informação, mas, ao fim, nada sabemos, depois de termos tido a ilusão de que fomos informados sobre tudo.

Se não dispomos de recursos que nos permitam avaliar a realidade e a veracidade das imagens transmitidas, somos persuadidos de que efetivamente vemos o mundo quando vemos a TV. Entretanto, como o que vemos são as imagens escolhidas, selecionadas, editadas, comentadas e interpretadas pelo transmissor das notícias, então é preciso reconhecer que a TV é o mundo. É este o significado profundo e preciso da atopia e da acronia, ou da ausência de referenciais concretos de lugar e tempo – ou seja, das condições materiais, econômicas, sociais, políticas, históricas dos acontecimentos. Em outras palavras, essa ausência não é uma falha ou um defeito dos noticiários e sim um procedimento deliberado de controle social, político e cultural.

Por isso mesmo, não nos deve espantar a inversão entre realidade e ficção produzida pelos meios. Se o noticiário nos apresenta um mundo irreal, sem geografia e sem história, sem causas nem conseqüências, descontínuo e fragmentado, em contrapartida, as telenovelas, por meio do reforço ao senso-comum no plano do enredo, à familiaridade do espaço e ao alongamento do tempo, e a construção das personagens com o máximo de realismo possível, de modo a impedir que tomemos distância diante deles (o efeito buscado é exatamente o contrário da literatura, do cinema e do teatro, que suscitam em nós o sentimento de proximidade justamente por que nos fazem experimentar o da distância).

Como conseqüência, a telenovela aparece como relato do real, enquanto o noticiário aparece como narrativa irreal. O noticiário se apresenta como ficção (o acontecimento não tem densidade, é um espetáculo irreal) e a novela se apresentada como realidade (os episódios são espacializados e temporalizados de modo a produzir a ilusão de que são fatos).

O ponto culminante dessa dupla inversão encontra-se no programa dominical da Globo, Fantástico, que, significativamente, traz como subtítulo “O Show da Vida”. A programação acompanha de perto os acontecimentos nacionais, mas só em raras ocasiões os menciona diretamente. Em lugar da menção direta, as imagens e textos oferecem uma interpretação e um comentário indireto. Os fatos são editados de maneira a parecer encenados e por isso mesmo com força persuasiva. Mas o forte do Fantástico encontra-se no tratamento dado à ciência e à técnica. Numa inversão, verdadeiramente fantástica, as descobertas científicas e técnicas são apresentadas como se fossem obra de magia – laboratórios são encenados de maneira a aparecer no vídeo em tons pastel, fartamente iluminados, repletos de aparelhos incompreensíveis, dando a impressão de um saber que escapa ao comum dos mortais, que se postam diante deles como se fossem as modernas cavernas de magos e bruxas; as falas ou depoimentos de cientistas e técnicos são “editadas”, isto é, selecionadas e cortadas, de maneira a enfatizar os aspectos supostamente misteriosos e miraculosos do trabalho científico e técnico. A inversão, porém, não se interrompe nesse ponto, mas prossegue: se não no mesmo programa, certamente no domingo seguinte, astrólogos, leitores de cartas, búzios e mãos são apresentados como cientistas, de sorte que, agora, a magia aparece como ciência. Da astrologia à astronomia e desta àquela não há solução de continuidade, assim como é contínuo o movimento de vai-e-vem entre, por exemplo, a pesquisa biológica e as poções de um curandeiro. A encenação se realiza por meio de uma operação precisa: a ciência simula a magia e a magia simula a ciência. Sem dúvida, isso é fantástico! O programa, porém, só se completa no momento em que a descoberta científica e o pitoresco, a aplicação técnica e a operação miraculosa são igualmente elevadas ou depreciadas pela figura da autoridade, ou seja, do(a) “âncora”, que se coloca como detentor do “verdadeiro saber” por que detém o poder de interpretar, comentar, traduzir e transmitir a suposta informação, manipulando simulacros.

Dissemos que os meios estimulam o narcisismo, pois as imagens são produzidas e transmitidas para repetir sempre a mesma mensagem: “eu sou você”. Em outras palavras, a imagem não é uma mediação, um signo que nos remeta a uma realidade distinta de nós, mas instaura uma relação imediata conosco, e essa relação só pode ser imediata se for uma relação de identificação.

Ora, para que haja identificação, é preciso que haja um sujeito com o qual nos identifiquemos. Quem é ele?

No noticiário, o sujeito é o locutor (ou “âncora”) e o repórter, isto é, o sujeito é a TV, enquanto a notícia e seus protagonistas são objetos. Os protagonistas da notícia falam à câmera, dando assim veracidade à televisão como sujeito único do noticiário. Em contrapartida, o locutor (ou “âncora”) e o repórter se dirigem a nós, explicando e interpretando o que o protagonista diz, uma vez que este é um objeto – portanto, nada sabe -- e a TV, o sujeito – portanto, sabe tudo.

Nos programas de entrevista, o sujeito é a pessoa privada apresentada em sua intimidade (gostos, hábitos, hobbies, preferências, segredos), oferecendo exatamente o que a câmera busca, isto é, o sujeito narcísico e narcisista. O entrevistador realiza duas operações: 1. eleva e elogia o entrevistado ("vejam, ele/ela é melhor e superior a mim e a vocês telespectadores") e 2. humilha, ridiculariza, envergonha, rebaixa, embaraça o entrevistado ("vejam, ele/ela não é tão melhor do que nós; você, telespectador, é igual ou superior a ele/ela"). A entrevista devassa, eleva e rebaixa, a fim de garantir que o melhor é “a pessoa média”, isto é, eu, você, todos nós telespectadores. Em outras palavras, explora o narcisismo do entrevistado para reforçar o nosso.

Nos programas esportivos, também o locutor (e o repórter) é o sujeito, por isso explica e interpreta a imagem para o telespectador e o destitui da condição de sujeito que vê e entende o acontecimento esportivo – não é formidável que um acontecimento esportivo visto em imagem seja narrado para quem o está vendo? Mas não só o telespectador é destituído como sujeito, também o esportista que, afinal, é o sujeito da ação. De fato, após a partida, o repórter indaga ao esportista: "o que você achou"? "o você que sentiu?", deixando de lado o fundamental, isto é, que o esportista realizou a ação, transformando-o em mero espectador de sua própria ação, cujo sentido só é conhecido pelo locutor ou pelo repórter.

Nos programas de auditório, o sujeito é o apresentador, enquanto o "calouro", o "concorrente", o "respondedor de perguntas" são submetidos a procedimentos sádicos de humilhação pública, compensada pelos prêmios e aplausos. Além disso, o programa de auditório é o simulacro perfeito: palmas e aplausos são comandados pela direção do programa, mas o telespectador tem a ilusão de que são espontâneos; idade, sexo, classe social dos membros do auditório são fixados pela produção do programa, mas o telespectador tem a ilusão de que a presença é livre e espontânea; os participantes (calouros, competidores, etc.) já passaram por uma seleção prévia, mas o telespectador tem a ilusão de que há um concurso real.

Dessa maneira, não só a TV é o mundo, mas também é o sujeito, oferecendo-se como um gigantesco espelho no qual devemos ver nossa própria imagem, que parece estar ali simplesmente refletida quando, na verdade, foi deliberadamente produzida para obter o efeito da identificação narcisista. Eis o poder exercido em estado puro.

IV. O poder da multimídia
Hoje, computadores controlam armas e operações militares, vôos espaciais, operações de aeroportos, de bancos e bolsas de valores, de sistemas urbanos de tráfego e de segurança, de edifícios denominados “inteligentes” e de setores inteiros do trabalho industrial e da produção econômica. Estão presentes nos carros de último tipo, nos estabelecimentos comerciais que vendem no atacado e no varejo, nos setores administrativos das instituições públicas e privadas. Encontram-se nas escolas e fazem parte do sistema de ensino e aprendizado dos países economicamente poderosos. Estão presentes nas editoras e produtoras gráficas, nos escritórios de engenharia, arquitetura e advocacia; nos consultórios médicos e hospitais; nas produtoras cinematográficas, fonográficas, televisivas e radiofônicas. Tornaram-se instrumentos de trabalho dos escritores, artistas, professores e estudantes, além de operar como banco de dados para informações na vida cotidiana, como correio, lazer e entretenimento.

O problema, portanto, é saber quem tem a gestão de toda a massa de informações que controla a sociedade, quem utiliza essas informações, como e para que as utiliza, sobretudo quando se leva em consideração um fato técnico, que define a operação da informática, qual seja, a concentração e centralização da informação, pois tecnicamente, os sistemas informáticos operam em rede, isto é, com a centralização dos dados e a produção de novos dados pela combinação dos já coletados.

Do ponto de vista da cultura, no sentido restrito de produção de obras de pensamento e de arte, estamos diante de uma nova forma de inserção do saber e da tecnologia no modo de produção capitalista. Nas revoluções técnicas e tecnológicas anteriores, a pesquisa científica teórica era autônoma e se tornava ciência aplicada quando empregada por meio de tecnologias vinculadas à produção econômica ou quando os resultados teóricos eram retomados com fins econômicos em laboratórios mantidos pelas empresas de produção. Hoje, a ciência (teórica e aplicada) tornou-se força produtiva, deixando de ser um suporte do capital para se converter em agente de sua acumulação e reprodução. Conseqüentemente, mudou o modo de inserção social dos pensadores por que se tornaram agentes econômicos diretos, e a força e o poder capitalistas encontram-se, hoje, no monopólio dos conhecimentos e da informação.

Ora, essa mudança radical do lugar e do significado da ciência ultrapassa o sentido restrito da cultura (criação de obras de arte e de pensamento) para alcançá-la em seu sentido antropológico amplo (instituição social da ordem simbólica, que determina a relação com o espaço, o tempo, o visível e invisível, o sagrado e o profano, as formas do trabalho, a sexualidade, as formas do poder, os valores morais, religiosos e políticos, os hábitos alimentares, de vestuário, etc.).

“Há, por conseguinte, uma relação muito próxima entre os processos sociais de criação e manipulação de símbolos (a cultura da sociedade) e a capacidade de produzir e distribuir bens e serviços (as forças produtivas). Pela primeira vez na história, a mente humana é uma força direta de produção, não apenas um elemento decisivo no sistema produtivo.”

Podemos assim dar um sentido à expressão “sociedade do conhecimento”. Com ela, pretende-se indicar que a economia contemporânea se funda sobre a ciência e a informação, graças ao uso competitivo do conhecimento, da inovação tecnológica e da informação nos processos produtivos e financeiros, bem como de serviços como a educação, a saúde e o lazer. Ora, é sugestivo, nessa expressão, que a palavra “sociedade” seja tomada como sinônimo de economia, e a palavra “conhecimento”, como sinônimo de força produtiva. Aliás, alguns chegam mesmo a falar em “capital intelectual” como o principal princípio ativo das empresas.

Para entenderemos essa espantosa e vertiginosa mudança tecnológica e cultural é imprescindível compreender como se deu a passagem da economia social-democrata (ou o Estado do Bem-Estar Social) à neoliberal. Enquanto a primeira operava uma divisão na partilha dos fundos públicos, destinando uma parte ao financiamento à reprodução da força de trabalho por meio do salário indireto (direitos sociais como educação, saúde, habitação, férias, salário desemprego, salário família, etc) e uma outra ao capital, sob a forma de subsídios, a neoliberal corta a destinação dos fundos públicos no pólo dos direitos sociais e os dirige quase integralmente ao capital. Como isso foi possível? Em primeiro lugar, por que por vários motivos, que não vamos explicitar aqui, o Estado entrou numa crise de endividamento conhecida como déficit fiscal e este foi atribuído ao custo dos encargos sociais. Em segundo, e principalmente, por que ao instituir o salário indireto, o Estado cortou o laço que prendia estruturalmente o capital ao trabalho ou ao salário direto. Esse laço era responsável pelas limitações que o trabalho impunha ao ritmo das transformações tecnológicas. Desfeito o laço, nada mais prendia o capital, que pôde desenvolve,r num ritmo e num grau jamais vistos, potencialidade tecnológicas inteiramente novas, para as quais não possuía liquidez, exigindo, assim, que o Estado dirigisse os fundos públicos ao seu financiamento. Dessa maneira, a economia passou da forma industrial à forma chamada pós-industrial, na qual a ciência e a técnica se tornaram forças produtivas diretas.

Que se passa no plano da comunicação?

Como escreve o jornalista Caio Túlio Costa, houve não só a expansão da tecnologia analógica, mas, em menos de duas décadas, o salto para a tecnologia digital, a explosão da telefonia celular e a multiplicação das maneiras de comunicação com a possibilidade de interação entre redes de computador, e “um aumento exponencial na velocidade de transmissão de dados, sob qualquer plataforma – celular, rádio, satélite, fibra de vidro ou mesmo fio de cobre” – os dados passaram a trafegar nas redes de comunicação passando de mil para milhões de bytes.

A tecnologia do sistema digital modifica totalmente a forma da comunicação, pois pode integrar num único sistema de distribuição e recepção a televisão, a Internet, o cinema, a telefonia de voz e imagem, redes de dados, distribuído pela casa ou pelo escritório para cada aparelho receptor: “televisão de alta definição, telefone fixo ou celular, tela de cinema, microondas e até geladeira, tudo regulado via Internet ... Cada canal de seus infindáveis canais vai permitir uma aplicação diferente.” Não causa espanto que companhias de produtos eletrônicos e empresas de telecomunicações estejam em disputa para controlar esse negócio de ponta a ponta.

Em outras palavras, o sistema digital produz um salto naquilo que surgiu na segunda metade da década de 1990, a chamada multimídia, sistema de comunicação que integra diferentes veículos de comunicação e seu potencial interativo. A multimídia “estende o âmbito da comunicação eletrônica para todos os domínios da vida: da casa ao trabalho, das escolas aos hospitais, do entretenimento às viagens. Em meados dos anos 90, governos e empresas do mundo inteiro empenharam-se numa corrida frenética para a instalação do novo sistema, considerado uma ferramenta de poder, fonte potencial de altos lucros e símbolo de hipermodernidade.”

Nenhum governo tinha condições para, sozinho, dar forma ao sistema multimídia, uma vez que a escala dos investimentos em infra-estrutura os governos não dispunham de recursos para atuar com independência. Formaram-se consórcios empresariais regionais/globais, com a fusão de companhias telefônicas, operadoras de Tv a cabo, operadoras de transmissão de TV por satélite, estúdios de cinema, gravadoras de discos, editoras, jornais, empresas de computadores e provedores da Internet, além de novas formas de integração tecnológica (como WEBTV e City Web). O desenvolvimento de um sistema multimídia integrado, porém, não exige apenas gigantescos investimentos em infra-estrutura e programação, mas ainda a definição do chamado “ambiente regulador” (isto é, quem manda em quem e no que), dificultado por conflitos e litígios óbvios e previsíveis entre empresas, partidos políticos e legisladores dos governos.

“Em tais condições, só grupos poderosíssimos, resultantes de alianças entre empresas de comunicação de massa, operadoras de comunicação, provedores de serviços de Internet e empresas de computadores estarão em posição de dominar os recursos econômicos e políticos necessários para a difusão da multimídia. Assim, haverá um sistema multinacional, porém, com toda probabilidade, será decisivamente moldado pelos interesses comerciais de uns poucos conglomerados ao redor do mundo.”

No caso da multimídia, pesquisas realizadas em alguns países do capitalismo central indicam que a chamada “casa eletrônica” enfatiza dois traços de um novo modo de vida: a centralidade da casa e o individualismo.

Centralidade da casa: aumentou o tempo passado em casa, pois praticamente tudo pode ser feito sem sair do domicílio (compras, pagamentos, correspondência, várias modalidades de trabalho e as informações sobre os acontecimentos, dos quais não se precisa ou não se quer participar) e os principais gastos da família são dirigidos à aquisição de aparelhos que permitam não sair da casa.

Individualismo: os aparelhos portáteis levam cada membro da família a organizar seu próprio espaço e tempo – o microondas favorece refeições solitárias, reduzindo as refeições familiares coletivas; o telefone celular e o microcomputador permitem conversas no isolamento de um cômodo, sem a presença de outros membros da família. Além disso, com a baixa dos preços de aparelhos de rádio, televisão, videogames e som para CD, todos eles equipados com um sistema individual para a audição, cada membro da família pode compor seu próprio mundo áudio-visual à parte dos outros.

Havíamos observado que a marca principal no neoliberalismo é o encolhimento do espaço público e o alargamento do espaço privado. Esse alargamento se manifesta não somente no plano econômico, isto é, na concentração oligopólica das empresas de comunicação, mas também na forma da sociabilidade: a “centralidade da casa” exprime exatamente a ampliação do espaço privado. Havíamos observado também que a condição pós-moderna é inseparável do elogio da intimidade que, nos meios de massa, reforça o narcisismo. O “individualismo”, mencionado nas pesquisas, exprime uma cultura e uma sociedade narcisistas.

Outras pesquisas indicam o crescimento da estratificação social entre os usuários, ou seja, o peso das diferenças de classe, etnia e gênero, pois não só o acesso à multimídia depende de condições econômicas (dinheiro, infra-estrutura física da casa, disponibilidade de tempo) como também das condições educacionais e culturais (conhecimento de várias línguas, conhecimentos gerais básicos para poder buscar informações e formas de interação entre elas), de sorte que surgem dois tipos de usuários, o que é capaz de ação seletiva e interativa e o que só é capaz de recepção de pacotes enviados pelo emissor. Em outras palavras, a multimídia reforça a exclusão social (do ponto de vista econômico) e a hierarquia (do ponto de vista social e cultural).

A multimídia potencializa um fenômeno que já havíamos observado ao nos referirmos à televisão, qual seja, a indistinção entre as mensagens e entre os conteúdos. Como todas as mensagens estão integradas num mesmo padrão cognitivo e sensorial, uma vez que educação, notícias e espetáculos são fornecidos pelo mesmo meio, os conteúdos se misturam e se tornam indiscerníveis. Essa mescla dos conteúdos é agravada e reforçada pela encenação: programas educativos em forma de videogames, notícias em forma de espetáculo, transmissão de sessões do poder legislativo ou do sistema judiciário como se fossem novelas, jogos esportivos como se fossem coreografias de dança, etc.. Em suma, como nas mídias tradicionais, o simbólico é devorado pelas imagens, os contextos semânticos são fragmentados e unificados com a mistura de sentidos aleatórios.

Finalmente, a multimídia unifica num único universo digital manifestações culturais distintas no espaço e no tempo, diferentes por sua origem (classes sociais, nacionalidades, etnias, religiões, Estados, centros de pesquisa, etc.), diversas por seu conteúdo e finalidade (informação, educação, entretenimento, política, artes, religião), dando origem à cultura virtual.

Conhecemos a distinção entre virtual e real. Virtual é o que existe sem estar diretamente presente ou dado em nossa experiência,. Ausente como um dado, está presente como condição de nossa experiência (por exemplo, só podemos ver as coisas graças à profundidade, mas não a vemos; ela é uma presença invisível, aquilo que não vemos, mas que é condição para nossa visão). Virtual é também o que existe como uma possibilidade que pode concretizar-se (por exemplo, uma escultura pode estar virtualmente num pedaço de mármore e pode concretizar-se graças ao trabalho do escultor). Real é o que existe de fato, podendo ser dado diretamente em nossa experiência ou ao nosso pensamento, ainda que, freqüentemente, seja dado de maneira deformada, incompleta e ilusória (como na ideologia). Vimos que a cultura, em sentido amplo, é criação de símbolos e estes exprimem nossa relação com o que está ausente, presentificam uma ausência (a linguagem presentifica seres ausentes ao nomeá-los, isto é, as palavras são símbolos que tornam presente o que está ausente; nas religiões, os ritos e cerimônias são símbolos ou atos simbólicos que presentificam as divindades ausentes; o trabalho é uma prática que produz ou torna presente algo que não existia, e o produto exprime, isto é, simboliza o produtor – por isso, no trabalho alienado, que produz mercadorias, o que é simbolizado não é o trabalhador e sim o capital). A cultura é, portanto, uma ordem simbólica e opera com a distinção entre presença ou realidade e ausência ou virtualidade.

Ora, a peculiaridade da multimídia está em que ela produz “realidade virtual” ou “virtualidade real”, ou seja, torna indistintos os dois aspectos que a cultura sempre distinguiu, pois essa distinção é essencial a ela como ordem simbólica. O que é o sistema de comunicação multimídia?

“É um sistema em que a própria realidade é inteiramente captada, totalmente imersa em uma composição de imagens virtuais no mundo do faz-de-conta, no qual as aparências não apenas se encontram na tela comunicadora da experiência, mas se transformam em experiência. Todas as mensagens de todos os tipos são incluídas no meio por que fica tão abrangente, tão diversificado, tão maleável, que absorve no mesmo texto de multimídia toda a experiência humana, passada, presente e futuro, como num ponto único do universo.”

Como dissemos, o poder da mídia alcança a forma máxima. De fato, por meio do aparato tecnológico, da atopia e da acronia, e dos procedimentos de encenação e de persuasão, os meios aparecem com a capacidade mágica de fazer acontecer o mundo. Ora, essa capacidade é a competência suprema, a forma máxima do poder: o de criar a realidade. E esse poder é ainda maior (igualando-se ao divino) quando, graças a instrumentos técnico-científicos, essa realidade é virtual ou a virtualidade é real.

* Conferência proferida no 32º Congresso Nacional dos Jornalistas, em Ouro Preto (MG), em 05/07/2006.

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