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Artigo 10/09/2007 | 18:42
Tempos Modernos
 
* José Carlos Torves

No final do século XIX, a maioria das pessoas trabalhava no campo, uma média de 16 a 17 horas por dia e a expectativa de vida era de 35 a 40 anos. Viver era trabalhar.
Embora com toda esta carga horária as pessoas eram donas do seu tempo. Paravam durante o trabalho para descansar, tomar uma água, comer alguma coisa e conversar.

No inicio da produção de automóveis, final do século XIX e inicio do século XX, a produção era artesanal. O trabalhador conhecia todo o processo, conhecia peça por peça e no final como ficaria o veículo.

Já em 1914, Henry Ford, observando um frigorífico, notou que um animal era colocado dependurado em roldanas e passava por várias etapas, onde em cada uma um trabalhador cortava e separava uma parte do animal. Resolveu adaptar o mesmo sistema na fabricação de automóveis, colocando o chassi de um carro, sob trilhos, e ao longo do processo, cada trabalhador ia colocando uma peça. Este processo passou a se chamar Fordismo. Este método era extremamente alienante, pois o trabalhador passou a ser um especialista de apenas uma determinada peça, não tendo noção do produto final. O filme “Tempos Modernos” de Charles Chaplin fez uma crítica a este modelo de produção.

O controle de jornada era feito pelo próprio trabalhador, onde ele tinha a responsabilidade de colocar ou fabricar uma determinada quantidade de peças por dia, caso contrário estaria criando um prejuízo para a equipe toda, sobrecarregando os demais.

Já no século passado o Fordismo foi superado pelo Toyotismo. Sistema adotado pela fábrica de automóveis Toyota, just-in-time. Este sistema eliminava os grandes estoques e infra-estrutura de armazenagem. Os valores que deixavam de ser gastos com grandes quantidades de material (pneus, portas, rodas) passaram a ser aplicados no mercado financeiro. Foi neste período que surgiu a terceirização. As empresas passaram a sub-contratar as chamadas sistêmicas, para a fabricação de peças e a indústria automobilística passou a ser montadora do produto final.

Para se ter uma idéia, a GM, em 1980, produzia 8 milhões de carros/ano com 750 mil trabalhadores, dez anos depois aumentou a produção com 44 mil trabalhadores. Mas enquanto a GM fabricava nove carros por hora a Toyota fazia 69/hora.

Portanto lá no inicio, por volta de 1850 se trabalhava 84 horas semanais. Hoje se trabalha 44 horas, uma conquista depois de muita luta, onde devemos lembrar os mártires de Chicago. Houve avanços na medicina e, no final do século XX, a expectativa de vida chegava aos 70 anos. E agora já é de 82 anos.

No Brasil, com o Governo FHC e o “Plano Real”, tivemos um crescimento da super terceirização no Brasil, pois a estabilidade da moeda favoreceu que as atividades meio devessem ser repassadas a outros e apenas a atividade fim ficasse com a empresa produtora.

Resultado disto, hoje existe a praga dos “PJS”, que também é uma forma de terceirização na atividade fim e, os estágios ilegais, especificamente na nossa profissão. O trabalho com carteira assinada é uma raridade. Essa situação que em 2005 colocava 450.000 trabalhadores na informalidade só em SP, tem previsão de que em 2010 teremos mais de um milhão.

Na nossa profissão, o Jornalismo, este é um problema que está crescendo de forma insuportável. O recém-formado para trabalhar precisa abrir uma empresa, ganhando o piso da categoria, sem nenhum direito trabalhista e sem nenhum amparo na seguridade social.

A Carteira de Trabalho é uma conquista dos trabalhadores e a “Emenda Três”, é uma ameaça a todos.

O Brasil precisa de desenvolvimento para dar conta de todos os seus problemas. O crescimento que vimos tendo de 3,5%, 4% do PIB é irrisório e as políticas compensatórias, como bolsa família e bolsa escola, amenizam, mas não resolvem os problemas nacionais.

Temos déficits sérios de infra-estrutura e enquanto não houver solução não haverá crescimento. O PAC – Programa de Aceleração do Crescimento, está em ritmo lento, pois os 3 bilhões pagos até agosto são apenas 20% da verba do programa de 15 bilhões para 2007.

No setor de comunicações, entre 2002 e 2005 os investimentos foram de R$ 58,7 bi e a previsão para 2007/2010 é de R$ 58,8 bi, portanto ZERO de crescimento.

Para se ter uma idéia do quanto é importante se pensar o Brasil em longo prazo, é só refletirmos o período em que foi implantada a CLT. Naquele período os trabalhadores com carteira assinada eram a minoria, pois a maioria estava no campo. Portanto foi uma medida tomada com um olhar no futuro. Da década de 30 até 1960 se pensava um Brasil para o futuro (Ver Celso Furtado, Caio Prado Jr. e outros pensadores da área econômica). Na década de 80, mesmo tendo sido a década perdida, também se pensava para o futuro. A prova é que nossa Constituição de 88 é uma das mais avançadas do mundo. Tanto é que hoje, o neoliberalismo tem duras críticas à nossa Constituição e, por esta razão, tem pressionado para que muitos artigos que precisam de regulamentação, até hoje não fossem regulamentados.

Ainda se fala em estado mínimo. Temos 12 milhões de funcionários públicos e se critica que deveríamos enxugar ainda mais. Só para comparar, nos EUA existem 25 milhões de funcionários públicos. A Inglaterra tem 18 milhões e a França 15. E o Brasil é um país continental. O serviço público sempre foi um ponto de equilíbrio na situação do emprego no país. Sem gasto público não há crescimento com redução das desigualdades. Na década de 90, no Governo Margareth Tatcher, quando o neoliberalismo começou a ser implantado no Ocidente é que estas políticas passaram a tomar conta do mercado internacional, mas também parou de se pensar o Brasil a longo prazo e parou também de se ter uma política desenvolvimentista para o país.

Há quinze anos que o Brasil não reencontra o caminho do crescimento. Precisamos elevar a produtividade, distribuir a riqueza, pois só isto vai tornar o Brasil competitivo. Diminuir a carga horária de trabalho para dar conta de milhares de jovens que ingressam no mercado de trabalho à procura de emprego.

Há necessidade de um patamar mínimo. Que não fique apenas sob a coordenação do mercado, mas pelo estado e pelo público. O capitalismo é uma máquina de produzir desigualdades. Aliás, a bem da verdade, este é um indicador que está caindo no Brasil, entre salários de homens e mulheres 56,1%, entre negros e brancos 11,0%, entre regiões metropolitanas e municípios pequenos do interior 19,3% e entre áreas urbanas e rurais dentro de um mesmo município 8,4%. Entretanto alguns indicadores nos preocupam: o crescimento na relação entre os trabalhadores formais e os informais é de 40,6% e entre os trabalhadores formais e trabalhadores por conta própria 43,5% (IPEA – Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas). Estes últimos dados mostram claramente o crescimento do trabalho sem carteira assinada, resultado da crise do desemprego, que também vivemos na área da comunicação. É hora de lembrar Marx: a produção de riqueza é também a produção da miséria.

Fiz toda está análise de conjuntura para que possamos refletir sobre a nossa profissão e o nosso mercado de trabalho. Em geral as análises que são feitas são muito simplistas. É necessário que tenhamos uma visão mais ampla da economia, com visão estratégica da comunicação. Devemos manter sim, a luta para combater os monopólios e oligopólios das comunicações, transparência nas concessões de canais, para que não ocorram mais concessões por troca de votos no parlamento, lutarmos pela democratização das comunicações, por liberdade de imprensa e não liberdade de empresa, por liberdade de expressão, por uma televisão pública e pelo acesso da sociedade às novas tecnologias que apontam para a convergência das mídias.

Precisamos de uma nova legislação, de uma nova regulação, que atente para as novas tecnologias, de uma nova lei de imprensa, de uma nova lei que regulamente a nossa profissão e de um Conselho Federal de Jornalismo. Mas, se olharmos para o país, veremos que todo o setor produtivo nacional está estagnado, o desemprego e a falta de distribuição de renda não é um privilégio do setor de comunicações, mas de toda a cadeia econômica. O neoliberalismo produz monopólios, oligopólios, desemprego e valoriza bens imateriais.

O Que Fazer?
Primeiramente uma análise de cenário:
Estamos entrando num momento de convergência tecnológica, através da digitalização nos serviços fixos e móveis das telecomunicações, na radiodifusão, em serviços de voz, dados e internet. Estamos saindo do mundo analógico para o digital. Nas TICs -Tecnologias de Informação e Comunicação -, a digitalização possibilita o transporte de linguagens e serviços numa mesma infra-estrutura para se tornar uma supervia de mídias, onde áudio, texto, vídeo e dados apresentam-se reunidos, desafiando indústrias, governos, transformando relações sociais. Isto quer dizer que teremos uma nova plataforma que vai possibilitar a inclusão social. Inclusão social da nossa profissão. Daí a importância na qualificação para este novo mercado que está nascendo.

A TV Digital, o rádio digital, a web e as telecomunicações móveis vão abrir inúmeras possibilidades de trabalho. E, todos vão precisar de conteúdos que serão produzidos por nós.

Superar velhos conceitos de formação da nossa profissão é o desafio. A nossa formação é para sermos empregados num setor que não tem empregos.

Precisamos nos requalificar. O papel dos Sindicatos, com o apoio da FENAJ é promover cursos e oficinas com este objetivo. Cursos de gestão: Planejamento, Gerenciamento e Orçamento para que possamos gerir nosso próprio negócio, montar uma assessoria de imprensa, uma rádio web, um blog de webjornalismo, uma pequena produtora para produzir documentários (equipamentos digitais estão mais baratos). Modelo de associação de três a quatro jornalistas. Projetos ousados de Economia Solidária, como o do jornal Tribuna Independente de Alagoas. O sindicato tem um papel estratégico no suporte deste novo modelo de negócio da nossa profissão, com apoio para a formação complementar, assessoria jurídica e administrativa.

Muitos teóricos do Mundo do Trabalho, na América Latina, vêm dizendo que a forma dos Sindicatos retomarem a mobilização, voltar a ter importância no mundo do trabalho, passa por ter políticas para os desempregados. É desconstruir o modelo neoliberal que valoriza o individualismo, fazendo dos sindicatos um ente anacrônico.
Os jornalistas empregados e com carteira assinada são a minoria no mercado. Devemos resistir e lutar para que estes tenham os seus direitos preservados. Mas e a maioria de desempregados e sem mercado? Estes devem se agregar no Sindicato para o grande desafio do momento: construir possibilidades de trabalho e renda.

* Diretor do Departamento de Mobilização, Negociação Salarial e Direito Autoral da FENAJ

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