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Artigo 2 31/01/2005 | 17:23
Mesmo sob fogo, é preciso ficar
 
Os jornalistas no Iraque, como em outros conflitos, estamos sob fogo, sob todos os fogos, sob todos os riscos.
A hostilidade em relação aos jornalistas no paí­s foi crescendo à medida que aumentava o descontentamento com a ocupação. Ela se institucionalizou em maio de 2004, quando Osama bin Laden declarou que a resistência entrava em uma nova fase e todos os jornalistas dos paí­ses da coalizão ou que realizavam reportagens sobre ela seriam executados.
Para continuar seu trabalho, grandes meios de comunicação investem fortunas em pequenos exércitos privados para resguardar a segurança de seus jornalistas, que se movimentam em camionetes blindadas e possuem rotas de fuga delineadas para o caso de surgir algum imprevisto.
O problema é que isso afeta diretamente a forma de se fazer jornalismo. O ser humano é a fonte principal de nosso trabalho. Estando sob uma custódia permanente que impede o contato direto com as pessoas, que tipo de jornalismo pode ser feito no Iraque?
Jornalistas de vasta trajetória, sérios, porém encurralados por uma situação inusual e altamente perigosa, buscam novas alternativas de trabalho, desde entregar o gravador e as perguntas aos tradutores locais para que saiam às ruas em busca do material até mandar buscar o personagem para que seja entrevistado no hotel.
O paradoxo dessa situação está nos jornalistas free-lancers, dos quais atualmente há muito poucos. Sem escoltas, sem veí­culos especiais nem ostentações, muitos, de várias nacionalidades, nos movemos com menos paranóias e seguimos confiando na proximidade com as pessoas, que é a única forma de se fazer jornalismo.
O trabalho torna-se então artesanal. Mimetizamo-nos com o ambiente, como alternativa, como obrigação ante a maior desproteção, mas isso acaba sendo benéfico para o contato cotidiano.
O "hijab" e a abaia, que cobrem meu corpo da cabeça aos pés, são vestimentas obrigatórias. Viajo no assento dianteiro do veí­culo com meu chofer, que finge ser meu marido. Isso faz com que, por segurança, muitas de nós sejamos "usadas" pelos colegas, que vão no banco de trás, também mimetizados com suas barbas e a cor morena adquirida pela pele.
é claro que os riscos são exatamente os mesmos. Os carros-bomba explodem à mesma distância, os tiroteios se repetem, os colegas são seqüestrados ou mortos, sofre-se o mesmo calor, o mesmo frio, a mesma incerteza.
Mas ser um jornalista latino no Iraque constitui uma experiência particular, gera uma simpatia instantânea que outros não alcançam. Não se fala muito disso na imprensa internacional, mas há histórias incrí­veis, como a de repórteres fotográficos americanos que falavam espanhol perfeitamente e diziam ser de algum paí­s hispanoparlante, pela simpatia que isso despertava nas pessoas. Passaram a fazer isso sempre e não tiveram problemas.
Em muitas ocasiões temos que suportar, sem reagir, que nos insultem no idioma local, desprezando-nos -no meu caso e no de outras correspondentes- com base em nossa condição de mulheres, ou até que nos toquem impunemente, como objetos.
Talvez a chave seja adaptar-se, tolerar mesmo quando corroí­dos pela dor, porque "em nosso ofí­cio é preciso ter uma certa disposição a aceitar o sacrifí­cio de uma parte de nós mesmos", disse o mestre polonês Richard Kapuchinski, um dos maiores correspondentes de guerra do século 20. é pegar ou largar. E isso requer convicção.
Sim, as guerras matam jornalistas -o demonstram os 40 mortos neste conflito, além das centenas que morreram em todas as guerras desta grande guerra que trava a humanidade através da história.
Mas é preciso ficar, até onde seja possí­vel resistir. é preciso continuar contando essa história. Essa é a mais simples porém mais contundente resposta à pergunta recorrente de por que nós repórteres vamos às guerras.
Se não estivéssemos aqui, passariam despercebidos os massacres, os abusos de poder, a ambição desmedida que provoca a morte e sofrimento de milhares, de milhões de seres indefesos ante a brutalidade humana. Estamos aqui para evitar que se feche a última janela de esperança das pessoas, enquanto as pessoas o permitirem. Karen Marón - Folha de São Paulo

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